Introdução

"A experiência de graus ligeiros de ansiedade em situações sociais é um fenómeno frequente, num largo número de indivíduos e não impede um funcionamento social adequado.
Contudo, em alguns indivíduos, a ansiedade experimentada em algumas situações sociais é tão elevada que interfere com o seu funcionamento social e , por vezes, conduz mesmo ao evitamento dessas situações.
Quando isto acontece estamos perante um distúrbio de ansiedade social. Nestes casos, o receio de ser avaliado negativamente, de parecer ridículo, desajeitado, tolo, ou de não estar à altura da situação e ver o seu estatuto social diminuído, desperta graus tão elevados de desconforto e medo que a vida diária se torna um tormento.

Clínicos gerais, médicos de família e mesmo muitos psiquiatras e psicólogos desvalorizam a sua importância, considerando-a mais como uma característica de temperamento que uma perturbação grave que necessita de tratamento. Também entre o público em geral o distúrbio de ansiedade social é mal conhecido. Talvez isso aconteça porque os ansiosos sociais não se comportam de forma tão estranha e não se queixam aos outros da suas dificuldades. Devido ao seu desconforto em situações sociais limitam-se a estar calados, procurando não chamar as atenções sobre si e sofrendo sozinhos o seu problema. As mesmas razões explicam a sua enorme dificuldade em procurar ajuda psiquiátrica ou psicológica"

Fonte: Livro "Ansiedade Social: da timidez à fobia social", José Pinto Gouveia, Ed.: Quarteto.

# Publicado a 18 de Junho de 2010 #

Ansiedade Social, o que é?

Ansiedade social refere-se ao nervosismo ou desconforto em situações sociais, habitualmente devido ao medo que a pessoa tem de poder fazer alguma coisa que possa ser embaraçoso ou ridículo, ou na qual possa causar má impressão, ou que possa ser julgada, criticada ou avaliada negativamente por outras pessoas.

Para muitas pessoas, a ansiedade social está limitada a certas situações sociais. Por exemplo, algumas pessoas ficam muito desconfortáveis em situações formais relacionadas com o trabalho, como fazer apresentações ou reuniões, mas ficam razoavelmente confortáveis em situações mais casuais, como festas ou a socializar com os amigos.

A intensidade da ansiedade social e a extensão das situações sociais temidas variam de pessoa para pessoa. Por exemplo, algumas pessoas sentem algum receio com que lidam razoavelmente bem, enquanto outras se sentem completamente esmagadas pela intensidade do seu receio. Para algumas pessoas, esse receio encontra-se limitado a um única situação social (por exemplo, falar em publico), enquanto que para outras pessoas, a ansiedade social surge em quase todas as situações sociais.

A ansiedade social está relacionada com diversos factores que poderão incluir estilos e traços de personalidade (por exemplo, introversão, timidez ou perfeccionismo). As pessoas que são tímidas sentem-se frequentemente desconfortáveis em certas situações sociais, em especial aquelas situações que envolvem interagir com outras pessoas e conhecer novas pessoas.

As pessoas que são introvertidas tendem a ser mais sossegadas e evitam ou retiram-se mais de situações sociais, podendo preferir estar sozinhas.
No entanto, as pessoas introvertidas não são necessariamente ansiosas ou receosas quando socializam. Por último, a disposição para o perfeccionismo está associada à tendência para manter elevadas expectativas para si mesmo que são difíceis ou impossíveis de cumprir. O perfeccionismo pode conduzir a pessoa a sentir-se ansiosa em publico pelo receio que as outras pessoas reparem nas suas “falhas” e os julguem negativamente.

# Publicado a 18 de Junho de 2010 #

Saber mais sobre a Timidez

A timidez é o desconforto e a inibição em situações de interacção pessoal que interferem na realização dos objectivos pessoais e profissionais de quem a sofre. Caracteriza-se pela obsessiva preocupação com as atitudes, reacções e pensamentos dos outros. A timidez aflora geralmente, mas não exclusivamente, em situações de confronto com a autoridade, interação com algumas pessoas: contacto com estranhos e ao falar diante de grupos - e até mesmo em ambiente familiar.

A timidez é um padrão de comportamento em que a pessoa exprime pouco os seus pensamentos e sentimentos e não interage activamente. Embora não comprometa de forma significativa a realização pessoal, constitui-se em factor de empobrecimento da qualidade de vida. Deste ponto de vista, a timidez não pode ser considerada um transtorno mental.

Aliás, quando em grau moderado, todos os seres humanos são, em algum momento de suas vidas, afectados pela timidez.

Existem graus diferentes de timidez:
- Timidez situacional: a inibição se manifesta em ocasiões específicas, e portanto o prejuízo é localizado (por exemplo: a pessoa interage bem com a autoridade e pessoas do sexo oposto, mas sente vergonha de falar em público);
- Timidez crónica: a inibição se manifesta em todas as formas de convívio social. A pessoa não consegue fazer amigos e falar com estranhos, intimida-se diante da autoridade, tem medo de falar em público, etc.

A pessoa pode também ser tímida porque sofreu bulling na infância ou na adolescência. Ela se auto-avalia como uma pessoa que não é interessante. A pessoa tímida tem medo de se expôr.

Algumas crianças nascem com predisposição a serem tímidas, assim como outras têm predisposição para se tornarem hiperativas ou calmas. Mas, se uma criança com tal predisposição genética encontrar um ambiente propício para a timidez se desenvolver, isso certamente ocorrerá.

O papel dos pais é decisivo neste processo e a timidez certamente desenvolverá se um ou ambos os pais forem eles próprios tímidos (a percepção depreciada de si mesmo é transferida para o filho), forem muito agressivos, submeterem o filho a constantes críticas ou humilhações silenciosas ou públicas, criem problemas familiares que causem vergonha, se tiverem um comportamento frio (pais que não exprimem seus sentimentos não ajudam os filhos a desenvolver a percepção de confiança em si próprios).

A timidez é mais comum na adolescência e, como vimos, independe de o adolescente ter sido tímido na infância. O quadro na adolescência, principalmente nos primeiros anos, pode se mostrar sério, mesmo quando na infância se apresentasse leve ou quase imperceptível.

No entando, a timidez é mais comum na adolescência pois o rápido crescimento por que passam os adolescentes pode fazer com que ele crie uma auto-imagem desfavorável de seu corpo, do todo ou de parte dele, mesmo que essa imagem distorcida não corresponda à realidade. Numa fase da vida em que a aceitação pelo grupo é essencial, esta distorção do corpo gera no jovem a insegurança de não ser bem visto pelos outros e favorece o reforço da timidez.

Este quadro não costuma perdurar quando o jovem entra na idade adulta, por volta dos vinte anos. A persistir, tem tudo para se transformar num quadro realmente grave de transtorno mental.

# Publicado a 18 de Junho de 2010 #

Se é muito mais que Timidez, afinal do que se trata?

A timidez não é um transtorno mental. Mas a timidez crónica pode evoluir para uma patologia, principalmente quando o adolescente não consegue superá-la ao entrar na vida adulta.

Tem-se aí a fobia social, quando a pessoa passa a evitar todas as situações sociais que não lhe são impostas pela mais absoluta necessidade. Assim, e como necessita de sobreviver, a pessoa pode - com sacrifício - trabalhar, mas evita outras situações que exijam exposição social, como comer em restaurantes, falar em público ou usar casas-de-banho públicas.

Além dos tremores comuns nos tímidos, o fóbico sofre de taquicardia, náuseas e desconforto abdominal.

O sofrimento de quem é acometido de fobia social é tão mais insuportável porque, no íntimo de seu ser, a pessoa anseia por manter um "relacionamento social", mas só não o faz porque uma intensa sensação de ameaça impede que isso ocorra.

O transtorno de ansiedade social, fobia social ou sociofobia, é uma síndrome ansiosa caracterizada por manifestações de alarme, tensão nervosa e desconforto desencadeadas pela exposição à avaliação social — o que ocorre quando o portador precisa interagir com outras pessoas, realizar desempenhos sob observação ou participar de actividades sociais. Tudo isso ocorre até o ponto de interferir na maneira de viver de quem a sofre.

As pessoas afectadas por essa patologia compreendem que seus medos são irracionais, no entanto experimentam uma enorme apreensão ao confrontarem situações socialmente temidas e não raramente fazem de tudo para evitá-las. Durante as situações temidas, é frequentemente presente nessas pessoas a sensação de que os outros as estão julgando e, enfim, tais sujeitos não raramente temem ser reputados muito ansiosos, fracos ou estúpidos. Por conta disso, tendem frequentemente a isolarem-se.

Este distúrbio não deve ser considerado uma forma exagerada de timidez, uma vez que os prejuízos incapacitantes que causa à adaptação social não são atenuados sem auxílio ou tratamento.

As pessoas com fobia social ficam pensando que todas as pessoas das casas, dos carros, lojas, etc, estão a olhar para ela de maneira de forma crítica, a perceber algo de estranho nela e por isso as pessoas que sofrem de fobia social tentam evitar olhar para as pessoas e andam de cabeça baixa, evitando qualquer contacto. Algumas pessoas fazem de tudo para nem sair de casa, ou, quando saem, elas sentem-se totalmente aliviadas quando voltam para casa, pois é o único lugar onde elas se sentem seguras.

Outra situação muito comum é quando a pessoa recebe estranhos em casa, mas conhecidos de outros familiares. A interacção com um desconhecido e o processo de conhecer outra pessoa torna-se muito doloroso para o fóbico social, principalmente por se dar dentro de sua casa que é seu refúgio.

O fóbico social frequentemente "marca" as pessoas que lhe trouxeram sofrimento (mesmo que essa pessoa não tenha feito algo de tão grave, o simples facto de a deixar desconfortável, já é o suficiente) e tenta evitar ao máximo seu contacto com esta pessoa.

Essa batalha mental traz um grande desgaste emocional e este é ainda mais agravado quando outras pessoas confrontam a falta de atitude do fóbico. Isso é observado na psicologia, quando o fóbico é estimulado a enfrentar o problema, e que resulta na piora do estado mental, se isolando ainda mais após a experiência. Experiências confrontantes resultam na totalidade em mais isolamento.

A fobia social incapacita a pessoa para o estudo, trabalho e demais actividades sociais privando o individuo de conquistas elementares na vida como amizades, relacionamentos amorosos, formação de uma família e crescimento profissional. É comum os portadores de fobia social abandonarem a escola e os estudos. Os que conseguem trabalhar, buscam profissões onde é a interacção social é mínima e em períodos nocturnos.

O que sente o Sociofóbico afinal?

O sociofóbico é acometido constantemente pelos seus receios. É um sofrimento diário. É desmoralizante todos os dias, todos os mêses e por vários anos, viver assim. Ao longo do tempo sem nenhuma evolução, a pessoa com fobia social pode acabar por desenvolver depressão.

O comportamento do sociofóbico passa então por:
- Temer falar em público
- Ter vergonha de comer ou beber em público
- Evitar a todo o custo participar de festa
- Ficar nervoso ao escrever em público
- Medo de olhar as pessoas nos olhos
- Medo de falar/iniciar uma conversa
- Exitar em fazer chamadas telefónicas
- Evita dar ou defender as próprias opiniões
- Medo de encontrar-se com pessoas desconhecidas ou até mesmo com alguem que já conheça mas que não tenha grande contacto
- Temor de estar em espaços fechados onde há muita gente (como supermercados, hospitais, transportes públicos...) e até mesmo em andar em ruas movimentadas
- Medo de ser apresentado a outras pessoas e de fazer amizades

- Ansiedade intensa perante grupos de pessoas
- Ansiedade antecipatória (antes da situação temida)
- Erubescência (ou já temer antecipadamente que tal aconteça)
- Tremores
- Palpitações
- Temor de ser observado e avaliado negativamente por outros.
- Temor de ser visto como fraco, ansioso, louco ou estúpido.
- Temor de que as próprias opiniões possam não interessar aos outros.
- Temor de não estar em estado de comportar-se de modo adequado em situações sociais.
- Tendência ao isolamento

# Publicado a 18 de Junho de 2010 #

O lado bom da TIMIDEZ

Escolas valorizam trabalho em grupo. Processos seletivos jogam candidatos em dinâmicas para identificar líderes natos. Empresas colocam seus funcionários em amplos escritórios sem divisórias e colhem ideias em brainstorms com uma dezena de pessoas - vale tudo, menos ter vergonha de falar besteira. Vivemos no mundo dos extrovertidos. Mas há pesquisadores que veem essa valorização do trabalho coletivo e da extroversão como um tiro no pé. "O mundo está desperdiçando o talento das pessoas tímidas", defende Susan Cain em seu livro Quiet (Quieto, sem versão brasileira), que compila estudos sobre o assunto. 

Mas como a timidez pode ser positiva, afinal? Para responder a isso, precisamos esclarecer uma coisa - ser introvertido não significa ser fechado ao exterior. Muito pelo contrário. É ser sensível demais a ele. É o que tem demonstrado desde a década de 1960 o psicólogo Jerome Kagan. Em seu estudo mais importante, ele juntou 500 bebês de 4 meses em seu laboratório em Harvard para observar como reagiam quando estimulados com sons, imagens coloridas em movimento e cheiros. Então separou o grupo dos que reagiam muito - 20% deles - e o dos que reagiam pouco - 40%. Suas pesquisas anteriores lhe permitiram predizer o contrário do que a intuição sugere: os muito reativos se tornariam os futuros introvertidos. Aos 2, 4, 7 e 11 anos de idade, essas crianças voltaram ao laboratório de Kagan. As que haviam sido classificadas como muito reativas desenvolveram personalidades sérias, cuidadosas, enquanto as pouco reativas se tornaram mais relaxadas e autoconfiantes - a futura turma do fundão. Isso porque a amídala (estrutura do sistema límbico, responsável por reações instintivas, como apetite, libido e medo) é mais facilmente estimulada em crianças muito reativas. Ou seja, são mais alertas, mais sensíveis a estímulos novos. Suas pupilas se dilatam mais, suas cordas vocais ficam mais tensas, sua saliva tem mais cortisol - um hormônio do estresse - e seu batimento cardíaco se acelera mais. Um pouco de novidade já implica em vontade de se proteger. O lado negativo é que são mais vulneráveis à depressão e à ansiedade. Mas, ao mesmo tempo, podem ser mais empáticas, cuidadosas e cooperativas, desde que se sintam em sua zona de conforto. "Crianças muito reativas podem ter maior probabilidade para se tornar artistas, escritores, cientistas e pensadores, pois sua aversão a estímulos novos as faz passar mais tempo no ambiente familiar - e intelectualmente fértil - de sua própria cabeça", diz Cain. 

Um introvertido concentra a mente numa só atividade, em vez de dissipar energia em assuntos não relacionados ao trabalho - estudos do programador americano Tom DeMarco com 600 colegas mostram que o que define a produtividade no setor de TI não é o salário nem a experiência, mas o quão isolado é o ambiente de trabalho. A solidão também permite focar-se nas próprias falhas e treinar até chegar à perfeição. É esse tipo de prática que cria grandes atletas e virtuoses musicais.

# Publicado a 15 de Julho de 2014 #